sexta-feira, 22 de maio de 2015

POR DENTRO DO MESTRADO (UFRN): ENTREVISTA COM LUIS GONZAGA

(Texto enviado pelo Representante do Beta EQ, Murilo Maioli)

Com a proximidade do final da graduação, os estudantes começam a se preocupar quais empresas oferecem os melhores salários, condições de trabalho, oportunidade de carreira e, sem dúvidas, como conseguir se aprovado no processo Trainee.


Quando falamos em processo Trainee, empresa e trabalho, é comum associarmos às grandes empresas do Brasil. Mas, muitos estudantes deixam passar as oportunidades dentro da faculdade, por exemplo, todos os alunos da graduação sabem que existe o mestrado e doutorado, mas poucos sabem qual a função do mestrado, quais seus objetivos, como é seus dia-a-dia e muitos outros deveres e direitos dos alunos de mestrado.

A fim de esclarecer essa duvidas, entrevistamos o mestrando em engenharia química da UFRN Luis Gonzaga Lopes Neto, 23, solteiro, Mossoró-RN. Ele foi aluno do PET (Programa de educação tutorial) por mais de dois anos e, além disso, estudou por um ano na universidade Ensiacet, França.


Graduação
Por que escolheu engenharia química?

Na época do pré-vestibular surgem as dúvidas e eu sabia que gostava muito de física, química e matemática. Eu pensava em fazer química, mas durante algumas pesquisas percebi que eu não queria ver só química. Eu gostava da aplicação e, então, busquei um curso com bastante aplicação da química, além de envolver física e matemática. Nisso apareceu a engenharia química.

Quais as maiores surpresas, boas e ruins, dentro do curso?

As surpresas negativas vêm logo a cabeça e, para mim, a qualidade dos professores foi uma surpresa. Antes da faculdade nos idealizamos muito pensando que todos são muito bem capacitados, mas alguns não tem uma didática boa e então precisamos corre atrás e, no final, isso é uma coisa boa, pois aprendemos a correr atrás, mas isso não deixa de ser uma surpresa ruim no momento.

De surpresa positiva posso citar a estrutura daqui. Eu não imaginava ser tão boa. Quando eu comecei a conhecer de fato o departamento, percebi que a UFRN estava sempre crescendo e sempre tínhamos todas as ferramentas que precisamos. Os laboratórios são bacanas, apesar de alguns serem precários ainda, mas, aqui está sempre em renovação.

Por que escolheu seguir a área acadêmica?

Essa é uma certeza que eu sempre tiver, antes mesmo de entrar na faculdade eu já pensava em ser professor. E, como eu falei, eu gostava muito da aplicação e não queira estudar apenas a teoria.


Quando a gente entra na graduação em engenharia química na UFRN, passamos pelo curso de nivelamento dado pelo PET e, naquele momento, a certeza foi maior: “Eu quero entrar no PET, quero dar monitoria e seguir a área academia”.


Você comentou que mesmo antes de entrar na faculdade, você pensava em ser professor. Mas, essa vontade apareceu em algum momento da sua vida?

Não acho que existiu um momento especifico, isso é fruto de uma construção, mas eu decidi em seguir a carreira acadêmica pouco antes do vestibular. Como eu disse eu tinha dúvida entre química e engenharia química, mas quando eu descobri que posso ser professor em qualquer curso decidi seguir carreira academia em engenharia química.

Mas, claro, que eu estava aberto para outras oportunidades dentro da faculdade. Por exemplo, eu podia gostar das aplicações dentro da indústria e querer trabalhar, mas as experiências dentro da faculdade me fizeram ter certeza sobre a área acadêmica,

Mestrado
Por que escolheu fazer mestrado na UFRN?

Primeiro, a UFRN é uma universidade muito boa e é referência no Norte e no Nordeste. Apesar das nossas limitações na estrutura e no corpo docentes, somos uma faculdade muito boa em pesquisa. E mesmo sendo os mesmos professores e a mesma dinâmica, eu achei que seria uma boa opção.


Além disso, eu tinha acabo de chegar da França, então estava com vontade de passar um tempo por aqui antes de seguir outros caminhos, como, estudar em um doutorado fora. Em resumo, os motivos são estes dois: A UFRN é uma boa faculdade e eu queria passar um tempo em Natal.

Como foi o processo seletivo para entrar no mestrado?

Na minha época era só análise de currículo, ou seja, você mandava o currículo lattes, publicações, certificados, histórico escolar e outros documentos necessários. Então, eles escolhiam os candidatos baseados nisso. Vários programas de pós-graduação no Brasil são assim. A Copy, por exemplo, (do RJ) faz do mesmo jeito, ou seja, pelo histórico e pelo currículo, eles selecionam os candidatos,

Atualmente, a pós-graduação em engenharia química realiza uma prova, assim como na maioria dos outros cursos de pós-graduação da UFRN. Não sei se eles vão mudar isso, mas a realização da prova é motivo de crítica de vários professores, pois eles afirmam que a análise do currículo e do histórico é suficiente.

Antes de ser aprovado, o que você imagina fazer como mestrando?

Primeiro eu pensava em dar aula, eu sempre gostei bastante disso, o ensino. Mas, como, no intercambio e no estágio eu tive muito contato com modelagem e simulação. Eu imaginava que no mestrado eu daria continuidade a isso. Por exemplo, colher dados experimentais, modelar e programar. Mas modifiquei isso um pouco e entrei na área de pesquisa mesmo, passei a ter mais contato com laboratório e com os equipamentos.

Na parte de docência eu fiz o que realmente imaginei, como, preparar aula, estudar e lecionar.

Antes de terminar, eu queria falar um pouco sobre a minha visão do mestrado durante a graduação, é algo bem interessante. Eu e, provavelmente, muitos alunos pensam que o mestrado é um ensino de altíssimo nível e ninguém consegue acompanhar. Mas não é bem assim, a maioria dos assuntos conseguimos acompanhar e aprender bem.

Como eu disse não é nada de outro mundo, mas os alunos de mestrado se aprofundam bastante nos assuntos. Por exemplo, em reatores, eu percebi que o assunto tinha algo a mais, mas, mesmo assim, não é nada de dar medo. Em resumo, os alunos de mestrado se aprofundam nos assuntos da graduação.

E agora, após alguns semestres no mestrado, o que você realmente faz?

Eu estou no terceiro semestre do mestrado e, basicamente, estou fazendo apenas a pesquisa. Esse um ano e meio foi bastante importante, pois aprendi bastante coisa relacionada à área academia e que não tinha na graduação. Apesar de participarmos de algumas pesquisas durante a graduação, não temos noção de como é desenvolver uma pesquisa. E agora eu estou entendo como escrever e submeter artigos. Além de buscar várias referências, ler diversos artigos e eu acho isso muito positivo.

O que eu faço é basicamente isso. Isso é legal pois estou aprendendo bastante e, além disso, o mais legal de tudo é fazer a pesquisa e depois de tratar os dados, você ver a aplicabilidade da sua pesquisa e dos seus conhecimentos teóricos.

Por exemplo, eu estou trabalhando em um reator fotoquímico, e é muito legal saber que as equações que aprendemos tem bastante sentido naquilo que estou fazendo

Como é seu dia-a-dia no mestrado?

Meu dia-a-dia é basicamente ir ao laboratório e fazer experimentos. Em geral, eu faço um experimento por dia, pois não tem tempo de fazer mais. Além disso, estou sempre em contato com Osvaldo Chiavone, meu orientador, e durante um dia da semana eu tenho aula sobre redação de artigo, ou seja, eu me dedico ao laboratório e à redigir o artigo.
           
Como são as aulas ministradas?

Quando você está do outro lado, percebe que dar aula é muito mais difícil do que parece. Não é só chegar na sala e dar aula. Ou seja, planejamento é essencial e isso é algo que aprendemos durante a iniciação a docência. Em geral, a cada uma hora de aula precisamos de uma hora de planejamento.

Além disso, precisamos pensar como avaliar os alunos e, principalmente, se eles realmente estão entendendo o assunto, pois o foco do professor tem que ser o aluno. Se o professor está do dando aula apenas para cumprir o papel dele sem se importar com os alunos, ele está falhando na tarefa dele.

Como o foco é o aluno, precisamos conhecer bem os nossos alunos. Por exemplo, não adianta aplicar a mesma estratégia de ensino em cinco salas diferentes.

E as aulas assistidas?

Como eu falei eu imaginava que as aulas eram de altíssimo nível, mas quando eu comecei a assisti-las percebi que não era bem assim. Claro que exige mais da gente, precisamos estudar mais e, claro, é um nível à cima da graduação. E se você estudou direitinho durante a faculdade, você consegue levar tranquilo o mestrado.

Existe alguma diferença entre assistir aula como graduando e como mestrando?

As aulas de cálculo eram bem parecida com as aulas da graduação pois as ferramentas estudadas eram as mesmas. Mas as aulas, por exemplo, de reatores possuíam um nível bem alto. Nos estudamos reatores “de cabo à rabo” e o professor cobrava muito e tinha bastante autoridade para falar do assunto. Além disso, as aulas tinham um clima muito bom, por exemplo, nós sabíamos que os assuntos estudados tinham uma grande aplicabilidade na indústria e, esse aprendizado, era bom para nossa vida também.

Outra coisa interessante, era como os professores davam aulas. Por exemplo, eu sempre pensei em dar aula, então assistindo as aulas consegui ter noção daquilo que os alunos gostam e das matérias que eles gostam. Assim, eu consegui descobrir qual tipo de professor eu quero ser e como me torna esse professor.

Qual sua área de pesquisa?

Minha área, em geral, é modelagem e simulação, eu trabalho com fotodegradação de poluente. Por exemplo, passamos uma solução aquosa com o fenol (poluente sintético) em um reator e degradamos o fenol com radiação ultravioleta. Inicialmente usamos lâmpadas convencionais, mas pretendemos utiliza a luz do sol. Como minha área é simulação, meu objetivo é colher os dados, a fim de criar um modelo para depois simular no computador.

O fenol é um poluente cancerígeno, então muitas industrias procuram métodos para pode retirar o fenol por causa da maior fiscalização. Antes os métodos para retirar o fenol não removiam a quantidade necessária prevista na lei. Não só na minha área, mas diversas áreas estão pesquisando métodos para tratamento de efluente. Como existem diversos métodos baratos para retirar o “grosso” do poluente, podemos chamar a fotodegradação com um tratamento refinado para os efluentes.

Como é a pesquisa?

Na minha pesquisa, eu tenho um procedimento pronto, pois outros alunos da UFRN trabalharam nessa área e criaram essa metodologia. Então, eu sigo esse procedimento, obtenho as amostras, analiso e, a partir, das análises eu colho os dados para tratar. Então uso o Excel para trabalhar com os dados e, depois, uso outras ferramentas para tratamento estáticos e software para modelagem, pois preciso estudar a influência das variáveis de entradas, como, vazão, concentração, intensidade e outros para entender como eles influenciam a minha variável de respostas, a degradação.

Basicamente, meu trabalho é divido em três etapas: o experimento, a análise e o tratamentos de dados. Em suma, o experimento é obviamente o processo experimental; a análise é o estudo das amostras; por fim, o tratamento de dados consiste no trabalho com os dados.

Qual o objetivo da pesquisa?

O objetivo da minha pesquisa é basicamente obter modelos, essa área está crescendo muito na engenharia química por causa das tecnologias cada vez mais avançadas. Em suma, eu pego os dados experimentais e traduzo os dados para a linguagem computacional. Por exemplo, no meu caso, eu traduzo a degradação fenol em uma linguagem computacional.


Quando você traduz para a linguagem computacional, fica muito mais fácil para encontrar outras aplicações. Por isso, a simulação e modelagem é essencial na indústria atual.

Quando você terminar o mestrado?

O mestrado possui um prazo máximo de 24 meses para terminar e você tem liberdade de fazer como quiser. Por exemplo, no mestrado precisamos pagar uma certa quantidade de horas de matérias obrigatórias e optativas; passar no teste de proficiência; na iniciação a docência, na qualificação e, por fim, a defesa.

Fica a seu critério a realização das atividades, mas, assim que você defender a tese, o mestrado termina. Se você quiser defender o mestrado em um ano, você pode defender.

Um pouco mais...
Quais os maiores desafios encontrado dentro do mestrado?

O maior desafio foi me adaptar à pesquisa. Na graduação eu fazia parte do PET e nos fazíamos pesquisa, mas não estávamos tão envolvidos com a pesquisa. Então, na graduação, por exemplo, eu fiz pesquisa na área de sistemas particulados. Apesar de estar na pesquisa, isso não fazia parte da rotina, eu trabalhar no laboratório algumas vezes na semana.

Quando chegamos no mestrado, temos que fazer pesquisa todos os dias. Foi muito trabalhoso me adaptar à isso. Entretanto, hoje em dia eu me acostumei e acaba fazendo o experimento no automático, pois é sempre o mesmo, mas muda as variáveis.

Quais as oportunidades de mestrados existem no Brasil?

Existem muitas oportunidades, por exemplo, muitos alunos da minha turma estão fazendo mestrado fora, como, em Campinas, no Rio de Janeiro e outras regiões do sul e sudeste que é o caminho mais comum daqueles que saem de Natal para fazer mestrado. Apesar disso, a UFRN é uma das melhores do norte e nordeste e, talvez, esteja entre uma das melhores do Brasil também.

Além disso, todos os meus amigos que queriam fazer mestrado estão cursando o mestrado, ou seja, oportunidade realmente não falta, como eu disse.

E no exterior?

Se não me engano, um aluno de engenharia química está fazendo mestrado ou doutorado no Estados Unido, ele viajou assim que se formou. Oportunidades de mestrado no exterior não faltam, principalmente na França. Como muitos professores da UFRN possuem envolvimento com as universidades da França, muitos alunos consegue o mestrado/doutorado sanduiche no país, eles fazem parte da pesquisa na França e a outra parte no Brasil.

Além das oportunidades na França, alguns alunos conseguem mestrado em outros países, mas, em geral, eles precisam ir atrás apesar de vários professores da UFRN ajudarem a conseguir os mestrados. Por exemplo, os professores sempre avisam sobre mestrado no exterior.
           
Quais vantagens e desvantagens de entrar em um mestrado?

Para quem gosta de estudar, a vantagem é continuar; para quem gosta de universidade, como eu, a vantagem é continuar no ambiente universitário, ou seja, continuar aprendendo a lecionar e ministrar. O mais legal nisso é entender como a ciência se desenvolve.

A desvantagem é não seguir direto para o a carreira profissional, mas não sei se isso é realmente uma desvantagem, pois, como eu disse, gosto muito do ambiente universitário. Além disso, existe muita especulação sobre a desvantagem salarial. Também não tenho certeza, mas provavelmente o salário é maior fora do mestrado. Além disso, podíamos estar estudando para concurso público, a fim de ganhar mais.

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