terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

COMO AGRADAR O EXIGENTE DOUTOR!

(Texto enviado pelo Trainee Beta EQ e estudante da UEM, Felipe Morelli)

Para discutir sobre o Mercado de Trabalho para Engenheiros Químicos recém-formados, na qual farei dele mais argumentativo do que informativo, comentarei primeiramente de forma abrangente qual minha opinião sobre o Mercado de Trabalho. No ensino médio, para os estudantes que desejam realizar um curso concorrido, que não necessariamente fala sobre sua qualidade, eles precisam enfrentar o temido vestibular, que por sinal acreditam, inocentemente, ser o maior desafio de suas vidas. Entretanto, logo que chega à Universidade é informado que sua nova meta é agradar o Dr. Mercado de Trabalho, extremamente exigente que diz que você precisa ter esta e aquela competência.


Estimo muito Gessinger, vocalista de Engenheiros da Hawaii, em várias de suas músicas, mas quando penso nesse assunto logo me vem á cabeça“Quem são eles? Quem eles pensam que são?”. E de fato, cadê esse Doutor Mercado de Trabalho? Quero conversar com ele, questioná-lo como alguém pode exigir tanto e não garantir absolutamente nada em troca. Quero seu contato para que quando eu possuir todos os atributos requeridos, que são muitos, ele me arrume um bom emprego! Brincadeiras á parte, eu não compactuo com nenhuma dessas exigências de habilidades comportamentais, técnicas e todas as normas que nos são passadas em chatas palestras. 

Despersonificando o mercado, este é dinâmico e carece de autenticidade, completamente contrário à padronização proposta por especialistas. Devo, acima de tudo, me conhecer e procurar, dentre minhas qualidades, quais podem ser usadas em benefício da instituição em que trabalho. Além disso, posso desenvolvê-las para que eu me destaque perante aos que se assemelham em minhas funções. 

Olhando de forma menos romântica a realidade que nos espera, se requer do Engenheiro frequentemente, além do conhecimento técnico, resiliência, que o profissional saiba se comunicar bem, que tenha bom relacionamento com sua equipe e que possa incentivá-los a realizar o trabalho da melhor forma possível. E isso qualquer pessoa autêntica possui: a comunicação é intrínseca ao homem, resiliência é necessária para todos os desafios da vida, e por fimpessoas que lideram a si mesmas, portanto autênticas, são inteiramente capazes de liderar uma equipe. Não preciso comentar sobre qualidades do tipo: pessoas éticas, bom caráter, entre outas: essas não são exigências do mercado, são para seu próprio bem em todas suas relações sociais. Não faça pelo mercado, faça por você! O resto é perfumaria. 

O mercado anda em déficit de engenheiros, obviamente por diversas razões. Na história, a geração dos nossos pais enxergava com maus olhos o estudante de engenharia, pois quem desejava seguir essa difícil carreira teria com certeza problemas financeiros¹; como diz minha mãe: “Quem fazia engenharia ia ser pobre”. Outro aspecto frequente é que cerca de 55% dos profissionais formados não trabalham na área.² Há ainda a dificuldade da educação básica, visto que as disciplinas de exatas são mal ensinadas, muitas vezes por professores de pouca instrução ou até de outras áreas, visto que também há déficit de professores de matemática, física e química.³

Entretanto, em meio á escassez de profissionais, há dois fatos que recém-formados devem se preocupar: um é referente à velha história da experiência requerida e o outro sobre um novo tipo de cartel. Sobre o primeiro, quem proclama aos diversos meios de comunicação a falta de engenheiros são empresários. Esses referem principalmente a falta de profissionais com experiência e recusam dar o primeiro emprego a muitos de nossos recém-formados.² A questão é básica: requerem experiência sendo que só é possível possui-la se os mesmos a oferecessem. Por fim, o segundo caso relatado por profissionais é o cartel do mercado de trabalho. O tradicional termo, cartel, é designado a uma prática ilegal de mercado onde as empresas eliminam um dos benefícios da concorrência, combinando os preços dos produtos, fazendo com que o consumidor não tenha muita saída e tenha que custear um alto preço para um produto que frequentemente é insubstituível. Por exemplo, postos de gasolinas de uma mesma cidade costumam realizar essa prática ao combinar preços praticamente iguais aos combustíveis, sendo o consumidor o único prejudicado. O cartel do mercado de trabalho, na qual vos alertei, segue a mesma linha de pensamento. As empresas oferecem salários praticamente iguais, e baixos, a todos os profissionais de engenharia, principalmente aos de pouca experiência, fazendo com que nós não tenhamos escolha a não ser nos sujeitar.4

A receita do mercado para os engenheiros é a que muitos estão cansados de ouvir: já que somos extremamente técnicos, pois a universidade nos molda assim, e, portanto, precisamos buscar ser profissionais comunicativos que saibam lidar com pessoas. Acredito piamente que a liderança provém da autenticidade aliada ao bom senso. Mas, aos que querem dar um passo a mais, sugiro-lhes que sejam questionadores, curiosos e que sempre duvidem de suas verdades. Segundo o mesmo Humberto Gessinger, “A dúvida é o preço da pureza, e é inútil ter certeza”.

Vocês verão além e claro, ao invés de satisfazerem a vontade do Dr. Mercado de Trabalho, irão surpreendê-lo. E, fazendo uma analogia, aos interessados em marketing, melhor que satisfazer a necessidade do cliente é surpreendê-lo, entregar algo que ele nem sonhava que desejava receber.

Referências:
[1] http://www.iea.usp.br/eventos/documentos/uma-proposta-de-sistematizacao-do-debate-sobre-falta-de-engenheiros-no-brasil
[2] http://www.insper.edu.br/vestibular/engenharia/mercado-de-trabalho/
[3] http://www.cartacapital.com.br/educacao/o-deficit-da-engenharia-comeca-nas-escolas
[4] https://exatasmentes.wordpress.com/2013/07/04/entendendo-a-falacia-da-falta-de-engenheiros-no-mercado/

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