quarta-feira, 26 de novembro de 2014

[II SBEQ] ENTREVISTA: RICARDO PERAÇA TORALLES (IFSUL)

"Para a II SBEQ, entrevistei o Professor Toralles. Ele é coordenador do meu curso no IFSUL e uma pessoa experiente para nos mostrar como é a vida de um profissional de Engenharia Química na realidade que nos cerca." (Natalí Tajes Cardozo, Representante Beta EQ)


- Professor, para começarmos a entrevista você poderia nos dar um breve resumo de sua vida profissional?

Toralles, R. P., Membro da Sociedade Brasileira de Ciência e Tecnologia de Alimento. Professor do Instituto Federal de Educação Tecnológica Sul-Rio-Grandense campus Pelotas onde participa do Grupo de Pesquisa de Controle de Qualidade em Processos Indústrias de Alimentos, orientando trabalhos com prospecção de enzimas de origem vegetal. Atualmente é Coordenador e professor do Curso de Bacharelado em Engenharia Química e do curso Técnico em Química. Possui graduação e especialização em Engenharia Química pela Universidade Federal do Rio Grande (1988), mestrado em Engenharia e Ciência de Alimentos pela Universidade Federal do Rio Grande (1998) e doutorado em Ciência e Tecnologia Agroindustrial pela Universidade Federal de Pelotas (2005), onde, atualmente, participa da comissão de orientação e professor colaborador da disciplina de Bioquímica de Alimentos. Atua em projetos de pesquisa nas áreas de ciência e tecnologia de alimentos e hortaliças, bem como, no desenvolvimento e modelagem de seus processos produtivos, atuando principalmente nos seguintes temas: polpas, néctares, purês, escurecimento enzimático e não enzimático, compostos fenólicos e antocianinas. Também atua em projetos de pesquisa na área de oleoquímica com ênfase em: lipases, lipólise, transesterificação, esterificação, hidrólise e saponificação. Tem larga experiência profissional em processos unitários, tais como: destilação, fracionamento, secagem, extrusão de pastas, atomização, transporte de fluidos, cristalização e concentração adquiridos em plantas de F.C. Lang S.A e Beralv Clorosul S.A. Além disso, conhecimento na área de oleoquímica como engenheiro de produção de ácidos graxos, glicerina, ésteres, sabões e sabonetes. Tem experiência na área de Ciência e Tecnologia de Alimentos, com ênfase em produção de polpas, purês e sucos concentrados, adquirido junto à planta piloto WIEGANG do CAVG/UFPEL.

- Quais as dificuldades que você encontrou depois de formado? 

Em 1988, época em que me formei, não tive dificuldade em arrumar emprego como engenheiro de produção porque o mercado estava aquecido, mas tive bastante dificuldade em trabalhar com gestão de pessoas. Naquela época tinha apenas 23 anos e nenhuma experiência em gerenciar uma equipe de trabalho, mesmo tendo iniciado minhas atividades profissionais na empresa que estagiei por último. 

O estágio ajudou bastante, mas quando tive minha carteira assinada mudou bastante meus paradigmas e obrigações, ou seja, tive que me adequar a modelos de gestão que são decididos e implantados para fazer funcionar uma organização empresarial. Tal fato fez com que as pessoas me enxergassem não mais como um colega. Precisei passar por mudanças pessoais e treinamento que permitissem refletir sobre questões como trabalho qualificado e sua divisão, modo de produção e sua valorização, dentre outras técnicas de gestão. Assim, consegui minimizar bastante as diferenças e formar uma boa equipe de trabalho visando não só a produtividade e o cumprimento de metas, mas também a motivação pessoal dos colaboradores e o bem estar coletivo da equipe, isto foi bem difícil! 

Poderia nos dizer quais os prós e contras de seguir determinadas áreas dentro da Engenharia Química (área acadêmica, industrial, de pesquisa)?

Já tive oportunidade de trabalhar nas três áreas e, apesar de ter objetos deferentes, todas necessitam de muita dedicação e determinação.  Na área industrial, a cobrança é baseada em metas e resultados que melhorem a produtividade da tua empresa e, consequentemente, a competitividade e o resultado final – o lucro. Os “prós” nesse processo é que os resultados aparecem quando são bem gerenciados, porém, quando a situação é adversa – recessão ou tecnologia obsoleta do processo produtivo - nós engenheiros somos exigidos ao máximo na nossa capacidade de gerenciar ativos e passivos. Nesse contexto, sempre as demissões necessárias são as maiores dificuldades a enfrentar. 

Na área da pesquisa é um pouco mais fácil gerenciar equipes, devido ao fato de se trabalhar com colaboradores mais qualificados, mas resultados significativos só acontecem quando o objeto – a pesquisa - teve o seu problema identificado de maneira correta. Costumo citar neste caso a poetisa Gertrude Stein – que não era pesquisadora – mas colocou o problema fundamental em um contexto diferente. No fim da vida, ela perguntou às pessoas reunidas ao seu redor: 

  – Qual é a resposta?

Como ninguém respondeu, ela disse:

 – Neste caso, qual é a pergunta?

Em qualquer tipo de investigação científica, a segunda pergunta é a que deve ser respondida em primeiro lugar. 

Na área acadêmica é onde encontrei a maior satisfação de trabalhar como professor, porque gosto muito do ofício de ensinar. Porém, nesta atividade, também é necessário experimentar outras funções. Atualmente sou coordenador do curso de Engenharia Química e, em muitos aspectos, lembra a época em que gerenciava questões na iniciativa privada, tais como: a busca pela eficiência, eficácia e efetividade. Entretanto foi aqui que me deparei com a divergência entre gestão pública e privada em termos de filosofia de gestão e prestação de serviços. Tais fatos geram angustias pessoais e, muitas vezes, intransponíveis. Por outro lado, os colegas e os alunos acabam nos fazendo encontrar forças para continuar o nosso desafio maior que é formar engenheiros químicos altamente competentes, adaptáveis e com uma capacidade de aprendizagem autônoma que lhes permita enfrentar uma sociedade em evolução acelerada, onde se abrem novas áreas de oportunidade profissional para além da indústria química, tais como: ciências e tecnologias ambientais, biotecnologia, ciência e tecnologia de materiais, nanotecnologias e gestão tecnológica.

 - Por qual motivo você seguiu na área acadêmica?

Foi uma decisão que começou a amadurecer em 1997, porque estava ficando cansado de trabalhar sobre constante estresse de cumprir metas, gerar resultados e viajar muito. Também comecei a sentir a necessidade de ampliar meus conhecimentos no eixo tecnológico da engenharia química. Então, ainda trabalhando na iniciativa privada, novamente retomei meus estudos através de uma especialização em engenharia química. Lentamente fui me desligando da indústria em detrimento da pesquisa e da vida acadêmica. Posteriormente acabei fazendo outras pós-graduações até ser efetivado por concurso público no quadro do IFSUL. No meu caso, hoje, tenho convicção que fiz a escolha certa porque adoro ser professor e pesquisador, principalmente, porque trabalho num ambiente ótimo tanto no curso Técnico em Química como na Engenharia Química.

- Qual a pretensão do Engenheiro Químico recém-formado?

Na minha época era trabalhar na iniciativa privada como engenheiro de produção. Hoje acredito que o pessoal está mais interessado em se aperfeiçoar através de uma pós-graduação, apesar de o mercado estar atrativo para engenheiros com uma boa formação e o conhecimento de uma segunda língua, principalmente no inglês. 

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