sábado, 30 de agosto de 2014

EMBALAGEM DE ALIMENTOS: RISCOS E DESAFIOS [ENTREVISTA Profª Drª CRISTIANE HESS]

(Texto enviado pelo Representante Beta EQ e estudante da UFRuralRJ, João Paulo Werdan)

A cada ano que passa nossas vidas se tornam mais corridas, são mais tarefas, compromissos e preocupações. Neste mundo globalizado somos reféns do tempo, e na correria do dia a dia somos “salvos” pelas embalagens, estima-se que até 2030 cada um de nós utilizará cerca de quinze embalagens por dia; com as embalagens surge a possibilidade de se ter o alimento a qualquer hora e em qualquer lugar pronto para o consumo. Assim começamos a entrevista “Embalagens de alimentos: riscos e desafios” com a Engenheira de alimentos Professora Doutora Cristiane Hess de Azevedo Meleiro*.


As embalagens são extremamente importantes para a vida moderna desde a praticidade e agilidade de se ter o alimento pronto à ampliação de seu prazo validade, o que aumenta não apenas a cadeia de distribuição do produto, mas também número de vendas. 

Obviamente as embalagens trazem consigo malefícios, sem sombra de dúvidas o maior deles é a grande quantidade de lixo gerado e que atualmente boa parte é descartado sem reciclagem, ocasionando assim grande impacto ambiental. Além disso, existem outros fatores que poucos conhecem nas embalagens, por exemplo, o fato de embalagens plásticas passarem por um processo de “migração” (que é quando aos poucos o plástico da embalagem vai se depositando no alimento, fato agravado por alguns fatores como pH e alimentos líquidos, apesar de a quantidade ser razoavelmente pequena, ocorre. É claro que a indústria se preocupa com esses acontecimentos, para isso investem em estudos, tecnologia e processos que atenuam impactos ambientais ou na saúde do consumidor. 

Em relação ao meio ambiente podemos observar, por exemplo, as embalagens retornáveis de refrigerante que ao serem reutilizadas diminuem impactos ambientais não apenas no descarte, mas também ao se evitar a retirada de matéria prima para a fabricação de novas embalagens, além dos altos custos com energia elétrica. Além disso, outa mudança são, por exemplo,  as atuais embalagens de água mineral sem gás que também diminuem impactos ao meio ambiente, pois têm cerca de metade da quantidade de polímero (plástico) utilizada há algum tempo atrás, por isso são mais maleáveis e se degradam com mais facilidade. Em relação a reciclagem, Cristiane Hess acredita que o Brasil está pensando tarde neste tema, porque é caro não apenas para fabricar uma embalagem mas também para descartá-la, para ela o Brasil precisa “correr” no que diz respeito a reciclagem porque lixo também tem um custo e é preciso que haja uma conscientização por parte do consumidor para dar preferência a estes tipos de embalagens. Além disso, outro “vilão” do meio ambiente é o transporte, por isso hoje já se investe em desenhos de embalagens que otimizam o espaço e diminuem volume de transporte.

Visando migração, transferência e riscos biológicos perguntamos qual embalagem seria a mais viável, para a engenheira seria o vidro por ser inerte, apesar de não ser uma embalagem prática e oferecer risco de corte, por exemplo. Em relação ao valor financeiro, ela considera que ele não deve ser potencializado, pois às vezes se tem embalagens que são mais caras, mais que podem aumentar desde a vida útil do produto ao número de vendas, ou seja, se deve levar em conta o custo-benefício na cadeia como um todo.

Outro ponto importante no setor de alimentos são os conservantes ou aditivos e até mesmo corantes. Perguntamos se a quantidade utilizada pela indústria é abusiva, Cristiane disse que não, o que acontece é que as indústrias utilizam tudo no máximo permitido pela legislação, ou seja, a indústria não é a “culpada”, mas a legislação que é permissiva. Acontece que ao final de um dia consumimos diversos alimentos com o “máximo” de aditivos permitidos, e não apenas um ou dois e acaba que esse máximo de um alimento se soma a vários outros e podem ser prejudiciais a saúde, causando, por exemplo, sérias alergias ao consumidor em alguns casos. A indústria acaba utilizando dessa “autorização” na lei a seu favor, pois mais aditivos representam maior validade e logística de distribuição. Em outros países já se pensa em diminuir a quantidade de conservantes, iniciando por produtos infantis; apesar disso a quantidade de aditivos em nossos alimentos se assemelham a de alimentos produzidos no exterior, até mesmo devido a existência de acordos de comércio.

Apesar de amplamente utilizados, o uso de aditivos pode ser suavizados com as embalagens. Com o grande avanço do setor, atualmente as embalagens são grandes aliadas no aumento da validade dos alimentos, por exemplo, existem embalagens que têm atmosfera interna modificada (nessas é introduzido CO2, nitrogênio ou outros gases que “eliminam” o oxigênio por densidade e assim evitam a oxidação do alimento, prática que pode ser observada em batatas chips). Poucos sabem, mas essa e outras técnicas são utilizadas no setor de alimentos, e são grandes responsáveis pela diminuição do uso de aditivos no alimentos; apesar de encarecer o produto final, tornam o produto mais saudável.

Outra dúvida que sempre surge no consumidor é “será que alimentos industrializados que são vendidos com naturais, são realmente naturais?”. Para nossa entrevistada existem indústrias idôneas que vendem realmente produtos sem nenhuma ação química, esses produtos são bem mais caros que os “não naturais”. Em contrapartida existem outras que comercializam produtos rotulados como “naturais”, mas apenas a matéria prima é natural e  para a comercialização há a adição de químicos, com isso o consumidor às vezes se “perde” nas informações.

Para a professora Doutora existem dois grandes desafios a serem vencidos hoje no setor, o primeiro por parte da indústria que é a pesquisa por embalagens que a preços acessíveis ajudem a diminuir o nível de conservantes e por parte do consumidor a aceitação de que produtos artificiais não precisam ter tanta cor ou açúcar, pois o natural não teria. Pois a indústria simplesmente respeita esse “costume” do consumidor.

Antes de concluirmos, pedimos à Cristiane para que compartilhasse alguma história por ela vivida na indústria e que oferecesse um conselho sobre oportunidades e quais caminhos estudantes devem seguir para serem bons profissionais. Em relação a história, disse que já trabalhou em uma indústria em que os profissionais não utilizavam objetos de medida, dosadores ou colheres, as transferências e medidas eram feitos nas mãos, e isso a incomodava muito. Sobre o conselho para nós estudantes, ela concluiu dizendo que a nossa geração tem um nível de informação muito grande em quantidade e qualidade e isso é muito bom, pois antigamente a única fonte de informação eram os livros das bibliotecas; o bom profissional deve saber filtrar e pensar mais do que na indústria, ele deve pensar em criar, empreender, aprender de várias áreas, ir além, surpreender e não se prender nas entrelinhas do convencional, ou seja, sair do convencional que é se formar e estar focado em ir para indústria. Aproveitar as oportunidades que temos à nossas mãos, como as empresas júniores, CsF, entre outros e “mergulhar neste mundo alternativo”.

Agradecimentos especiais e consulta técnica:

Professora Doutora Cristiane Hess de Azevedo Meleiro*

*A Professora Doutora Cristiane Hess de Azevedo Meleiro , possui graduação em Engenharia de Alimentos pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro(1997), mestrado em Tecnologia de Alimentos pela Universidade Estadual de Campinas(1999), doutorado em Ciência de Alimentos pela Universidade Estadual de Campinas(2003) e curso-tecnico-profissionalizante pela Escola Técnica Federal de Química(1991). Atualmente é Associado I da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Revisor de periódico da Química Nova (Impresso), Revisor de periódico da Brazilian journal of food technology (Impresso), Revisor de periódico da Acta Amazonica (Impresso) e Revisor de projeto de fomento do Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do RJ. Tem experiência na área de Ciência e Tecnologia de Alimentos, com ênfase em Tecnologia de Alimentos. Atuando principalmente em carotenóides CLAE EM. 

Referências bibliográficas:
Texto original BetaEQ!

Imagem: http://www.nadir.com.br/2010/img/galeria/2010/08/12.png

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