sexta-feira, 27 de junho de 2014

[VISITA TÉCNICA] EARTHPOWER - ELITRICIDADE A PARTIR DE LIXO

(Texto enviado pela Representante Beta EQ e estudante da UFMG, Ana Martins)

Há alguns dias falei sobre uma das visitas técnicas que fiz pela UNSW, universidade que estudo aqui em Sydney, na planta de dessalinização de Sydney. Pois bem , fiz mais uma visita depois dessa e acho que também vale compartilhar porque é outra tecnologia que não temos no Brasil (ainda) e que tem um potencial enorme.

Se a dessalinização era focada em solucionar o problema da escassez de água, a Earthpower veio matar outros dois coelhos em uma cajadada só: o acúmulo de lixo e a crise energética. O que exatamente eles fazem? Eletricidade a partir de lixo. Vamos ao processo:

O primeiro passo foi distribuir latas de lixo separadas em orgânico e reciclável para cada uma das residências da cidade. O lixo reciclável é reaproveitado da mesma forma que no Brasil, talvez em escala um pouco maior porque a coleta vai a todas as casas, mas o processo é o mesmo. O lixo orgânico é enviado à planta da Earthpower e triturado e misturado com água para produzir o que eles chamam de polpa. Há geração de resíduo aqui e o destino dele, infelizmente, ainda é o aterro sanitário. O único resíduo que é simplesmente despejado. Mas de qualquer forma, é uma redução e tanto.

Essa polpa é levada então para biodigestores, repletos de bactérias. Essas bactérias são tão eficientes que consomem todo um tanque de dezenas de litros em poucos minutos. Como resultado de um processo de respiração anaeróbica, produz-se biogás, basicamente metano e dióxido de carbono, e matéria orgânica decomposta. Cada um desses produtos tem um destino diferente.

A matéria decomposta passa por uma centrífuga que a separa da água. A água é tratada e reciclada, enquanto os sólidos passam por mais um processo de secagem e granulação para que possam ser vendidos como um poderoso fertilizante.

O gás é separado para produzir o metano mais puro possível. O restante do gás também é tratado antes de ser liberado na atmosfera enquanto o metano segue para um gerador de eletricidade. No gerador, o gás é usado como combustível para produção de eletricidade. 

Além de usar matéria prima quase gratuita, reduzir a poluição e gerar energia razoavelmente limpa, plantas desse tipo, acredite se quiser, não produz muitos odores ou ruídos. Lá dentro fede muito, mas na porta já não se sente mais nada. Isso permite a instalação de plantas muito perto das residências (Tem um condomínio a 3km dessa que eu visitei), o que economiza uma grana com o transporte do lixo e reduz a perda de energia durante a transmissão para o consumidor.

Eu sei o que você está pensando. Que isso é genial, que vai salvar o mundo, por que isso não é feito em todos os lugares? Porque (ainda) não é lucrativo. A instalação de uma planta que lida com gases, principalmente gases explosivos, requer equipamentos caros e de excelente qualidade, além de mão de obra altamente qualificada e manutenção regular, para evitar acidentes graves. Por mais que a matéria prima tenha apenas o custo do transporte até a planta, a capacidade com que o projeto opera no momento fornece energia para apenas 12000 residências. E embora os brasileiros possam pensar diferente, eletricidade é um produto barato. Fertilizante então, nem se fala. Por isso os lucros não são o bastante para que a Earthpower se mantenha com as próprias forças e se ela ainda está de pé é graças à redução de impostos que os investidores recebem.

De qualquer forma, é um projeto com muito potencial. A planta é aprimorada todos os anos e há sim esperança de que ela se torne lucrativa um dia. E então eu espero que a idéia se espalhe pelo mundo.


Nenhum comentário:

Postar um comentário