quinta-feira, 29 de maio de 2014

DESISTÊNCIA NOS CURSOS DE ENGENHARIA: UM PROBLEMA ENDÊMICO

(Texto enviado pelo Representante Beta EQ Milton Júnior)

60,3 mil. Esse foi o número de matriculados em cursos de engenharia que abandonou as aulas ao longo da graduação no Brasil em 2011. A alta taxa de evasão tem aumentado nos últimos anos e é um dos fatores que contribuem para o déficit de profissionais no país, principalmente no setor público.

Com o baixo nível de tecnologia ao ser comparado aos países desenvolvidos, e com o grande atraso no qual o Brasil se encontra, a grande solução centra-se em engenheiros com boa qualificação. Contudo, as engenharias de modo geral registraram queda na participação total entre o número de acadêmicos formados no país. Para o Ph.D. em Economia Naercio Menezes Filho, do Instituto Insper, o cenário mostra que, nesta área, a demanda está aumentando mais rapidamente que a oferta e, portanto, há uma maior necessidade desses profissionais. Esse déficit poderia ser eliminado com folga caso a evasão nos cursos de engenharia diminuísse ao menos pela metade.

O curso de engenharia em si não é fácil, todos, estudantes ou não, sabem disso. Por tal motivo é necessário que tenha à disposição um tempo maior para dedicar-se, além de um nível básico de conhecimentos. É preocupante ver que nada menos do que 57,4% dos alunos desistem de terminar o que iniciaram. Muitos mudam para Administração, Direito, ou outros cursos que não sejam baseados em tantos cálculos ainda no segundo ou terceiro períodos. Uma saída precoce, tendo em vista que nem mesmo as matérias específicas foram cursadas.

Deficiência na formação básica

De acordo com estudo do Instituto Lobo para o Desenvolvimento da Educação, Ciência e Tecnologia, a principal causa das desistências é a deficiência na formação básica dos estudantes em Matemática e Ciências – disciplinas que permeiam grande parte das aulas dos futuros engenheiros.

Não precisa pesquisar muito para chegar à conclusão de que há um enorme e profundo abismo entre a educação básica e superior brasileiras. “Muitos estudantes entram na faculdade e não conseguem acompanhar as disciplinas ligadas a cálculos. Aí acabam desistindo porque não tiveram uma boa base”, resume o presidente da Federação Interestadual de Sindicato de Engenheiros (Fisenge), Carlos Roberto Bittencourt.

Richard K. Miller, professor da faculdade de engenharia Franklin W. Olin College, uma faculdade norte-americana que tem uma proposta além da convencional na formação de seus alunos, apresentou uma possível solução para os problemas com formação em matemática. “Matemática pode ser frustrante. Você começa a trabalhar em um problema e para em uma dificuldade. Se você tem uma pequena equipe, quando encontrar uma dificuldade, você pode ultrapassá-la”. Sim, o grupo de estudos é uma ótima forma de superar dificuldades.

Altas mensalidades nas universidades privadas

Porém, esse abismo entre a educação básica e a superior não é o único problema. As universidades privadas de qualidade mínima exigida pelo MEC têm valores altíssimos para os cursos de engenharia, e alguns dos alunos não têm condição de estar mantendo a mensalidade sem emprego, o que leva a um regime integral e uma jornada intensa de trabalho, estudos dentro da faculdade e os estudos em casa, que são imprescindíveis para o rendimento mínimo esperado de um aluno, não sobrando tempo para a alternativa encontrada por Miller, por exemplo. O governo tem sistemas de integração que tornam possível a realização desse sonho, que é ter um diploma de nível superior, porém as vagas são limitadas e não atendem a todos os públicos. A taxa de evasão nas universidades privadas chega a 60%, contra 40% nas públicas.

Escolha prematura do curso

Outro motivo é a escolha precoce do curso. Os alunos saem cada vez mais cedo do ensino médio e tendem a escolher não o que querem, mas o que acham por causa de influência. Chegando lá e após alguns anos com quedas e aprendizados, o aluno percebe que não é aquilo que quer e perde novamente alguns meses, até anos, de sua vida descobrindo e se preparando para mudar totalmente o rumo de sua profissão.


Evasão da profissão

Não basta a grande desistência nos cursos, 58% dos engenheiros  brasileiros não trabalham em sua área de formação, aponta análise feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) com base em estatísticas do Ministério da Educação (MEC) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Diante desse cenário, a CNI defende mudanças nos cursos de engenharia. Uma das sugestões é a inclusão de disciplinas no currículo de experiências práticas para que haja uma aderência do ensino às demandas da indústria, semelhante ao que ocorre com a residência em medicina. A confederação cita que na Alemanha "a formação de engenheiros é baseada em know-how prático, voltada para aplicação industrial".

"A indústria que investe em inovação requer profissionais prontos, com visão de mercado, habilidades de gestão, de trabalho em equipe, aplicação de leis e normas técnicas e domínio de idiomas estrangeiros, principalmente o inglês. Mas os engenheiros saem das universidades brasileiras com excesso de teoria e falta de prática. Como não estão prontos para a indústria, buscam outros setores", avalia o diretor de Educação e Tecnologia da CNI, Rafael Lucchesi.

Demanda do mercado

Jorge Almeida Guimarães, presidente da Capes, destaca a importância da qualidade dos cursos, a que não seria necessário abrir mais vagas. “Não precisaríamos abrir mais vagas de engenharia, mas trabalhar para ocupar as vagas ociosas, que ficam desocupadas devido à evasão dos alunos”. 

A realidade do mercado de trabalho para os alunos de engenharia no futuro é um ponto controverso. Enquanto, por um lado, entidades acreditam que o crescimento econômico fora do esperado tenha diminuído a demanda pelos profissionais, por outro, a falta de engenheiros continua latente.

Há alguns anos, acreditava-se que a falta de engenheiros no Brasil seria um grave problema devido às grandes obras de infraestrutura no país. Segundo a Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia), este cenário não se concretizou. O que se esperava era que a Copa do Mundo, Olimpíadas e o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) demandassem da categoria de profissionais algo além do que o mercado seria capaz de suprir.

Em nota, a instituição relata que "apesar de todos os investimentos em infraestrutura – na expectativa da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016 –, o crescimento de certa forma discreto do PIB brasileiro não confirma a previsão de expansão sinalizada há dois anos. Com o desenvolvimento da economia abaixo da taxa de crescimento potencial, a demanda de profissionais está equilibrada, nos dias atuais, diferentemente do cenário apontado no ano passado".

Já Murilo Celso Pinheiro, presidente da FNE (Federação Nacional dos Engenheiros), acredita que a falta de engenheiros é um sintoma atual no país. “Os projetos das Olimpíadas de 2016, a exploração do petróleo da camada do pré-sal e o PAC são indicativos de que o desenvolvimento nacional corre riscos, por conta da falta de mão de obra especializada”.

Pinheiro também ataca a importação da mão de obra como solução para o problema, proposta levantada pelo governo federal em 2013. “Isso se limitaria a resolver o problema de forma paliativa e não nos deixaria nenhum legado. A nossa proposta é bem diferente e diz respeito à mudança de paradigmas, colocando a questão tecnológica como prioridade”.

E você? Vai se deixar abater e fazer parte dos desistentes ou fará de tudo para entrar no seleto grupo de engenheiros do futuro do Brasil? O mercado está a todo vapor! Vai perder essa chance?

Fonte:



Nenhum comentário:

Postar um comentário