quinta-feira, 29 de maio de 2014

DE ÁGUAS RESIDUAIS A ÁGUA POTÁVEL


(Texto enviado pelo Representante Beta EQ Weverton Baldin)

Ao redor do mundo, 2 em cada 10 pessoas não tem acesso a água potável, e, no Brasil, algumas regiões do Nordeste enfrentam escassez de água. Recentemente, muito se tem falado do nível de água do Sistema Cantareira, o maior dos sistemas administrados pela SABESP e um dos maiores do mundo, destinado a captação e tratamento de água para a Grande São Paulo.

De acordo com previsão do ATLAS Brasil, um relatório de abastecimento urbano de água produzido pela Agência Nacional de Águas, das 29 regiões metropolitanas do Brasil, apenas 1 (isso mesmo, uma) apresentará um abastecimento satisfatório em 2015 e outras 12 requerem novos sistemas de tratamento. As outras 16 restantes requerem novos mananciais para atender a demanda de água em 2015. Com o constante crescimento da população e mudanças climáticas geram mais crises de abastecimento, onde encontraremos água suficiente para atender a nossa demanda?

No Brasil, muito se gasta para tratar água e apenas 10% dela é usada para beber e cozinhar. Então o uso crescente de água de reuso para irrigação, decoração, indústria e descargas, é uma boa forma de conservar nossos recursos naturais.

O uso de água de reuso para fins potáveis é menos comum, principalmente pelo fato de as pessoas se sentirem desconfortáveis sabendo que a água que estava no vaso sanitário agora está na torneira. Porém, alguns países como Singapura, Austrália e Namíbia, e alguns estados dos Estados Unidos, como California, Virginia e Novo México, já estão potabilizando água de reuso, demonstrando que águas residuais purificadas podem ser seguras e limpas, além de ajudar em épocas de escassez.

O termo “toilet to tap” (do vaso sanitário para a torneira), usado para difundir a oposição à ideia de potabilizar águas residuais, é ilusório, pois essas águas passam por um tratamento extensivo e minucioso. Além disso, essas águas geralmente são misturadas a águas subterrâneas ou superficiais antes de serem enviadas ao consumidor final, assim elas passam novamente por outro tratamento. Na verdade, essa água contém menos contaminantes que as águas comumente abastecidas à população. Há várias tecnologias usadas para o reuso da água, dependendo de quão pura ela precisa ser e para quê ela será usada.

Na estação de tratamento de esgoto Point Loma, em San Diego, o esgoto passa, primeiramente, por um tratamento primário avançado, onde a água é separada de partículas grosseiras, então entra em bacias de sedimentação onde químicos são adicionados para fazer com que o lodo primário decante e que as espumas flutuem. Uma vez que a água é separada, 80% dos sólidos já foram removidos, e o esgoto está limpo o suficiente para ser descartado no oceano. No tratamento secundário, bactérias são adicionadas para digerir os sólidos orgânicos, produzindo o lodo secundário que decanta. O tratamento terciário filtra a água para remover os sólidos remanescentes, desinfeta com adição de cloro, e remove os sais dissolvidos. Na California, efluentes terciários são chamados de água de reuso e podem ser usados para irrigação e indústrias.

Para potabilização indireta (Indirect Potable Reuse – IPR), o efluente terciário ainda passa por tecnologias avançadas de tratamento, que envolvem, primeiramente, micro ou ultrafiltração, que retêm os sólidos remanescentes. Em seguida, a osmose reversa, que aplica uma pressão na água em um lado da membrana permitindo que a água pura se permeie, elimina os vírus, bactérias, protozoários, e resíduos farmacêuticos. A água então é desinfetada por radiação ultravioleta ou ozônio e peróxido de hidrogênio. Finalmente, é adicionada a mananciais, onde fica por um período médio de 6 meses para serem purificadas por processos naturais, mas é feito principalmente para reduzir o desconforto da população. Uma vez retirada dos mananciais, essa água passa pelos tratamentos já existentes para atender os requisitos de potabilidade.

Para lidar com a crescente população e a intrusão de sais nas águas subterrâneas, o Orange County Water District, na California, inaugurou sua planta de reuso de água de US$ 480 mi em janeiro de 2008, a maior dos Estados Unidos. A mesma tem um custo operacional de US$ 29 mi por ano. Depois do tratamento avançado, metade da água é injetada no aquífero para criar uma barreira contra a intrusão de água do mar. A outra metade vai para um lago de percolação para filtração avançada por sólidos, e, após 6 meses, acaba nas captações de água.

Singapura, que não possui aquíferos naturais e um pequeno território, tem feito um grande esforço por décadas para prover uma fonte de água sustentável para seus habitantes. Em 2003, foi inaugurada a primeira planta para a produção de NEWater, água potável de reuso purificada por técnicas avançadas de separação por membranas, incluindo microfiltração, osmose reversa e desinfecção por radiação ultravioleta. NEWater, que passou por mais de 65 mil testes e supera os padrões de água potável da World Health Organizations, é limpa o suficiente para ser usada na indústria de eletrônicos e para ser engarrafada como água potável.


Namibia, o país mais árido da região sul da África, tem potabilizado água de reuso desde 1969. A planta que produz essa água gera 35% da água para a capital do país, Windhoek. Até agora não houve casos negativos relacionados à saúde atribuídos ao consumo da água de reuso.

O termo “toilet to tap” surgiu quando Los Angeles passou por uma crise de água e a repulsão da população a uma planta de potabilização de água de reuso foi alta.

Um relatório recente avaliou as potenciais implicações de saúde causadas por químicos de preocupação emergente (CECs) como resíduos farmacêuticos, pesticidas e químicos industriais em águas de reuso. Os cientistas revisaram estudos epidemiológicos de águas de reuso dos últimos 40 anos. Enquanto alguns estudos recentes mostraram a presença de subprodutos da desinfecção por cloro, o relatório notou que os métodos de tratamento eram menos sofisticados na época. Os métodos atuais foram refinados e a geração de subprodutos foi minimizada. Estudos recentes de águas de reuso não encontraram efeitos adversos na saúde da população que bebe água de reuso. Apesar dos cientistas afirmarem que a exposição a longo prazo aos CECs são desconhecidas, eles concluíram que há uma evidência robusta que água de reuso representam uma fonte segura de água potável.

A opinião pública tem mudado em alguns países. Se eles confiam na empresa de tratamento, a maioria das pessoas entende que o reuso é inevitável. A verdade é que a água é sempre reciclada, graças ao ciclo da água e as leis de Lavoisier. A potabilização de água de reuso vai ocorrer de uma forma ou de outra, vindo de águas superficiais ou subterrâneas. É mais confiável realizar esse reuso através de sistemas de engenharia, onde o processo pode ser controlado ativamente.
  
Adaptado de: Cho, Renee, The Earth Institute – Columbia University, Water Maters. Available in http://blogs.ei.columbia.edu/2011/04/04/from-wastewater-to-drinking-water/

Fontes: Agência Nacional de Águas, ATLAS BRASIL. Disponível em http://atlas.ana.gov.br/Atlas/forms/Home.aspx

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